P7 Entrevista: José Eduardo Gonçalves conta como nascem as ideias criativas

José Eduardo Gonçalves, natural de São João del-Rei, é jornalista, editor, escritor e empreendedor cultural. Foi repórter do jornal O Globo e gerente de Comunicação do grupo Andrade Gutierrez. Foi presidente da ABERJE-Associação Brasileira de Comunicação Empresarial. Presidiu ainda a Rádio Inconfidência e a Rede Minas de Televisão, emissora na qual editou e apresentou, por quatro anos, o programa RedeMídia.

Curador de diversos eventos de literatura e com três livros de ficção publicados, José Eduardo utiliza das palavras para sensibilizar e conquistar o seu público. Para ele, só é criativo quem é curioso e é daí que surgem as melhores ideias.

Foi sobre esse tema que conversamos com o José Eduardo para a série “Criatividade pra mim é…”. Confira abaixo a entrevista completa:

 

P7 Criativo: O que é Criatividade para você?

Para falar de criatividade eu gostaria de situar, em primeiro lugar, a natureza do meu trabalho. Sou jornalista, formado em Comunicação Social, e já trabalhei em jornal, revistas, rádio, tv e assessoria de imprensa. Exerci a minha vocação para a palavra e a comunicação em várias frentes. Repórter, assessor, gerente de Comunicação, apresentador de programa de tv, presidente de rádio e de tv, editor de duas revistas, redator de publicações empresariais, editor de livros, curador de eventos literários e escritor. Escrevo muito, ainda que publique pouco. E tento ser bem literário mesmo em meus textos para empresas, em textos para mídias sociais e outros. Acredito que a escrita literária tem um forte poder de sedução.

Criatividade, portanto, é para mim a capacidade de sensibilizar e conquistar o público com o qual estou trabalhando. Se é um trabalho institucional, o objetivo é transmitir o conceito da instituição ou empresa para a qual executo um projeto, fortalecendo a sua imagem. Se é um texto de jornal, eu preciso prender a atenção do leitor desde o início, tenho de ter estratégias criativas para isso. Se é como gestor, a criatividade está em mobilizar as equipes para atingir metas mais audaciosas. Como editor, a minha criatividade deve estar presente desde o início, propondo ideias e percursos ainda não percorridos, de forma a surpreender o mercado, ou retrabalhando conceitos existentes. Como curador, preciso ser criativo para imaginar encontros com potencial de público, costurando temas e propostas menos usuais, buscando novos formatos de diálogo. Como escritor, o céu é o limite. Não há parâmetros para a ficção, além da exigência de ser bem escrita. Os temas da literatura universal costumam ser os mesmos – os amores, a vida e a morte, as relações pessoais, os dilemas morais, os embates entre a coragem e a covardia, a solidão, enfim, tudo o que é humano. Alguns escritores, no entanto, conseguem nos surpreender e nos levar até o fim em suas histórias, sendo que algumas se tornam inesquecíveis para a vida toda.

Como se vê, criatividade está ligada a algum resultado. É ter ideias que possam surpreender e ser exequíveis, já que é fundamental ter como foco um determinado desafio a ser superado. Em meu trabalho, ser criativo é saber conectar pessoas, emocioná-las, provocá-las. A criatividade sem um propósito é um exercício de vaidade e egoísmo. Este tipo de pessoa criativa fala consigo próprio e não com o outro. É capaz de ter ideias geniais que apenas satisfazem o ego de seu criador. Ser criativo, às vezes, é ser o mais simples. Às vezes é o contrário, a opção pode ser o caminho mais difícil. Muitas vezes é preciso ousar, arriscar mesmo, ir aonde outros não foram. Mas, cuidado: ninguém inventa a roda. Aquela ideia extraordinária pode ser, simplesmente, uma releitura de algo que a humanidade já criou há tempos. É bom desconfiar de quem vende a ilusão das ideias revolucionárias. A criatividade pra valer está mais preocupada em adequar boas ideias e dar soluções para impasses de natureza diversa. Para um escritor, a criatividade é um ótimo recurso para desenvolver um roteiro sedutor e ajudar no desenvolvimento do processo de escrita.

P7 Criativo: Como nascem as ideias inovadoras e criativas?

Nascem, especialmente, do desejo de querer fazer algo especial. Nascem da vontade genuína de acertar, do quanto estamos focados em algo que queremos. E do quanto estamos abertos à inspiração. O cérebro precisa estar em sintonia com o universo e com a gente mesmo. A mente precisa estar receptiva. A cabeça só funciona quando está aberta, da mesma forma que o paraquedas só funciona quando abre. É preciso saltar, arriscar, se aventurar. Entrevistei o poeta Ferreira Gullar, certa vez, e ele me disse que a vida é invenção. Adorei essa ideia porque ela implica em um compromisso efetivo com o viver. Com o desejo de fazer algo marcante, bonito, relevante, que faça diferença para outro alguém. Acho bonito esse sentido de inquietude, de inconformidade com o que está posto, esse desejo de agir sobre o mundo, de estar presente na vida coletiva. Tudo isso é muito estimulante e uma ótima antena para captar ideias que estão por aí, no ar.

As boas ideias não surgem do acaso, são fruto de exercícios constantes, de muita prática entre acertos e erros, e de um modo de ver a vida. Só é criativo quem é curioso, no sentido de entender que sabemos pouco, que sempre é possível saber mais, que há coisas que ignoramos e que não há respostas para tudo. A poeta polonesa Wislawa Symborska, ganhadora do Nobel de Literatura de 1996, disse em seu discurso de premiação que “a inspiração, seja ela o que for, nasce de um incessante ‘não sei’”. Pessoas curiosas em relação à vida vivem em permanente aprendizagem. Esta curiosidade é muita próxima da paixão. A gente é mais criativo quando trabalha com coisas que ama, com temas que desafiam, com pessoas bacanas e bons propósitos.

P7 Criativo: Como está o processo criativo neste momento de pandemia?

O momento atual é de profunda mudança, em todos os sentidos. Estamos aprendendo na marra com essa experiência de ficar em casa, com nossas famílias, distantes do convívio social. É uma vida nova, desafiadora, com enorme potencial de liberar a criatividade. Há problemas, pois a rotina nova, com filhos pequenos em casa, impõe muitos limites. O trabalho doméstico absorve muitas horas do dia. Ao mesmo tempo, aprendo na convivência íntima com meus filhos, é lindo isso. Com a esposa, há que se enfrentar e administrar tensões e diferenças, buscando não perder a harmonia. As primeiras semanas foram terríveis. Depois, as coisas foram se encaixando e os projetos profissionais voltaram a ocupar uma parte da vida. Entendi – o que eu já sabia, mas andava esquecendo – que é preciso ter foco para ser criativo. O que eu quero fazer? Para que fazer? O que quero com isso? O que preciso conquistar, qual o desafio?

Como eu já disse antes, criatividade é exercício cotidiano, então é preciso não se descuidar disso. Voltei a me colocar em posição de alerta. Com isso, começaram a chegar as demandas e comecei a analisar propostas, projetos etc. Quanto mais coisas eu tenho para fazer mais encontro tempo para tudo, mais eu respondo com criatividade e assertividade. No momento, estou (1)fazendo um livro institucional para uma empresa, (2) desenvolvendo uma ideia matriz para um projeto que reúne arquitetura e literatura, (3) finalizando a edição de um livro para a minha coleção “Beagá Perfis”, (4) iniciando a edição de um livro para minha coleção “BH.A cidade de cada um”, (5) preparando a retomada do projeto “Letra em Cena”, no Minas, a partir de agosto em plataforma online, (7) acompanhando a produção de uma autobiografia de um empresário e (8) acabei de escrever uma resenha literária para um jornal (tive de ler um livro de 550 páginas em uma semana). E estou (9) respondendo a este questionário!

Neste pacote que acabei de apresentar há de tudo, desde projetos já consolidados em andamento até ideias que começam a ser desenvolvidas agora e que podem vir a ser ou não bons projetos no futuro. O fato é que estou trabalhando e exercendo a minha criatividade em várias frentes.

Nesta quarentena a que estamos todos submetidos, um aspecto pessoal que ficou diretamente afetado foi a minha escrita ficcional.

Eu tinha um livro de contos em estado avançado e isso parou por completo. Não consegui escrever nem mais uma linha e nem reler o que já escrevi. É como se eu não estivesse encontrando tempo para a ficção, que é essencial em minha vida. Então, a criatividade para a minha escrita pessoal ainda não foi retomada. Este é o próximo passo. Já consegui me envolver com projetos profissionais, agora preciso cuidar de reencontrar a escrita literária, praticada desde a adolescência. Sem a literatura, aqui abrangendo tanto a escrita quanto a leitura, sinto a vida pobre, vazia, rasa. A literatura me alimenta e abastece. Ler é um gesto cultural aprendido e cultivado diariamente. E escrever é a forma que encontrei para me situar na vida e no planeta. É no enfrentamento das palavras que consigo olhar para mim mesmo e para o mundo de fora, estabelecendo a minha comunicação com os outros.

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