P7 Entrevista: Rosana Mont’Alverne fala sobre criatividade, imaginação e leveza

Conversamos com Rosana Mont’Alverne, diretora da Editora Aletria, advogada, escritora, contadora de histórias e ex-presidente da Câmara Mineira do Livro. Ela inaugura uma série de postagens que faremos com diversos realizadores mineiros sobre criatividade e inovação. Para ela, o caminho para criar passa pela leveza.

Imaginação e vivências lúdicas são as inspirações dessa artista para os tempos difíceis.

Confira a entrevista completa:

 


 

P7 Criativo: Qual o sentido de criatividade para você e como sua parceria com a criatividade fez você ser a profissional que é hoje?

Rosana: Eu acho que podemos e devemos ser criativos em qualquer atividade, profissão ou ofício. A criatividade não se restringe aos “criativos mais conhecidos” como desenhistas, designers, artesãos e artistas em geral. Os professores que marcaram minha memória afetiva foram exatamente os criativos, os que inventavam moda pra chamar a nossa atenção, animar as aulas e fixar os conteúdos.

No Judiciário (onde trabalhei por 32 anos), inventamos vários projetos bem sucedidos, como os cursos de literatura e narração de histórias para presos da APAC de Itaúna como forma de ajudar em sua ressocialização (eles se apresentavam em público, participavam de seminários jurídicos e encontros de sensibilização de comunidades para a construção de novas APAC’s e até escreveram um livro, “O segredo da caixa”), o Projeto Conto Sete em Ponto (noites temáticas mensais de narração de histórias), o Pensa TJ (programa de palestras de grandes pensadores contemporâneos com publicação de seus artigos e entrevistas em revista especialmente criada para o projeto), entre outros.

Lembro-me com carinho de juízes que proferiam sentenças em versos, que criaram penas alternativas que muito contribuíram com a comunidade a que serviam, que inovaram criando mutirões carcerários e de sentenças, etc e etc. A memória vai longe e eu poderia citar centenas de exemplos agora. Agora, à frente da nossa editora, a Aletria, estamos testando ideias novas diariamente.

 

P7 Criativo: Como ser criativa neste momento de pandemia?

Rosana: Como ia dizendo, agora estamos testando ideias novas todos os dias. É muito louco acordar um dia e constatar que tudo o que você fazia de determinado jeito deve ser repensado. Por outro lado, acho super desafiador e até divertido. É estranho falar em “diversão” num momento tão sombrio para a humanidade, com tantos mortos, desemprego e fome. Mas não consigo separar criação de brincadeira e diversão. Sou dessas que brinca com o prato de salada, fico colocando as rodelas de cenouras no lugar dos olhos, o tomate vira boca, o brócolis tornam-se cabelos e por aí vai. Então o que estamos fazendo? Inovando, criando, brincando. Literalmente.

Disponibilizamos vários vídeos em nosso canal no YouTube de brincadeiras pra fazer com a meninada em casa. Contadores de Histórias estão nas nossas redes. Criamos o Chá das Seis, live semanal, toda quinta-feira, às 18h, no Instagram, com autores, ilustradores, pesquisadores e especialistas da LIJ (Literatura Infantil e Juvenil). Já tínhamos em nosso catálogo vários e-books. Agora todos os nossos títulos estão ganhando sua versão digital. Também redesenhamos os lançamentos. Agora temos booktrailer, lives com autores, parcerias com várias livrarias para lançamento simultâneo, enfim, acho que o alcance é até maior do que antes. Estamos preparando a volta do Conto Sete em Ponto, ao vivo no YouTube.

Confirmamos o que já suspeitávamos: o home office é perfeitamente viável e já está adotado desde o início da quarentena com ótimos resultados. Um desafio que temos pela frente é qual plataforma de cursos escolher, o melhor formato, parcerias e etc. Estamos trabalhando nisso com muito cuidado porque o nosso curso de formação de contadores de histórias é um dos mais longevos e tradicionais do país. Queremos oferecê-lo on-line com um upgrade irresistível.

 

P7 Criativo: Como nascem as ideias?

Rosana: Essa pergunta me lembrou imediatamente um livro que amo: “Onde vivem os monstros”, de Maurice Sendak. Sou mais uma entre os incontáveis fãs da obra e possuo a belíssima edição da finada e saudosa Cosac Naify, que considero um presente aos leitores brasileiros. Sobre o livro, disse a crítica do New York Times: “o trabalho de Sendak, disfarçado de fantasia, emerge do ‘eu’ primitivo, da criança que espreita no coração de todos nós”.  Sim, a luta do controle versus imaginação está presente também em “Haroum e o mar de histórias”, de Salman Rushdie, Ed. Companhia das Letras que, não por acaso, reli durante a quarentena.

Também Sheherazade me ensinou a enfrentar a ira e a morte contando histórias. O incrível professor de matemática Júlio César de Mello e Souza, o brasileiríssimo Malba Tahan, escreveu sobre a verdade travestida de fábula para chegar ao sultão no conto “Uma fábula sobre a fábula”. A verdade bem que tentou chegar até o sultão sob o manto transparente de seu verdadeiro nome, mas não conseguiu. Tentou uma vez mais disfarçada com grossas peles e dizendo ser a acusação, em vão. Foi sob a aparência de fábula que a verdade conseguiu penetrar no palácio e apresentar-se ao soberano.

Considero-me uma editora de literatura infantil e uma contadora de histórias que eventualmente escreve livros. Minha diminuta obra tem muito de oralidade. Aliás, houve um tempo em que toda a literatura do mundo era estritamente oral; depois foi cravada na pedra, depois no papel, depois nos computadores, hoje mora na “nuvem”. Isso pouco importa; como é registrada a literatura é uma questão que pouco acrescenta ao debate literário. Mas a pergunta permanece: como nascem as ideias ou onde vivem as histórias? O escritor português Eduardo Prado Coelho disse que “a linguagem é, por si, uma relação com o mundo, com o inconsciente e a história”. Na minha experiência, seja exercício de infância, seja a luta contra os monstros que habitam as profundezas das nossas mentes, seja o inimigo invisível que nos obrigou a todos a repensar a vida, a literatura infantil ou qualquer outra obra oriunda do gênio humano encontra boa interpretação nos versos do poeta mineiro Fernando Brant:

 

__Há um menino, há um moleque

Morando sempre no meu coração

Toda vez que o adulto balança

Ele vem pra me dar a mão.

Há um passado no meu presente

O sol bem quente lá no meu quintal

Toda vez que a bruxa me assombra

O menino me dá a mão.__

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