Mercado Editorial – O caminho da superação pela solidariedade e financiamento coletivo

Se vamos admitir que o ano de 2020 foi bastante desafiador, Carol Magalhães, fundadora da Quintal Edições pode acrescentar uma inundação à essa conta, mesmo antes da chegada da pandemia, que destruiu a sua casa, também local de funcionamento da editora e todos os livros em seu estoque. E é a sua história deste ano que ela conta ao P7 Criativo, em mais uma entrevista da série Reinvenção.

Carol Magalhães é formada em Produção Editorial e atua no mercado desde 2002. Desde de 2015, dedica-se à Quintal Edições, uma editora especializada em publicar obras escritas por mulheres. Sua primeira publicação foi em dezembro daquele ano, o livro “A Cultura do Grafite – Por um Direito nas Ruas”, de Mariana Fernandes Gontijo. Desde esse lançamento, ela tem participado de mesas redondas sobre o tema do espaço da mulher no mercado editorial e a literatura escrita por mulheres, além de muitos outros eventos.

P7 Criativo – Como era o dia a dia da Quintal Edições antes da pandemia?

Carol Magalhães – Estamos completando cinco anos de vida este mês e somos uma editora voltada para abrir as portas e oportunidades para mulheres que querem se lançar no mercado editorial. Podem ser ensaios, poesias, trabalhos mais aprofundados. É uma editora bem pequena e independente, com pequenas tiragens.

Já estávamos trabalhando com vendas online, mas o maior fluxo sempre foi a participação em eventos editoriais presenciais variados. Muitas feitas em Belo Horizonte (nossa sede) e também em outras cidades e estados. Também realizamos os lançamentos de nossas autoras, com bom retorno. A Quintal Edições vive da venda dos livros e não cobramos das autoras para publicá-los. É um trabalho de coração e vocação e apesar de o foco não ser todo voltado para o lucro, estávamos indo bem.

Temos 30 livros publicados, de 30 autoras. A missão da Quintal é descobrir novos talentos e proporcionar oportunidades. Somos uma porta de entrada no mercado e hoje, algumas dessas escritoras já estão conhecidas como, por exemplo, a Mariana Salomão Carrara, que começou com a gente e agora foi semifinalista do prêmio Jabuti 2020.

E o que aconteceu este ano com a editora?

Lá pelo final de janeiro, tivemos uma série de chuvas torrenciais que causaram muito estrago na cidade. Em uma dessas chuvas, minha casa e também sede da Quintal ficou completamente inundada. Trabalhamos com a impressão de livros de forma tradicional e a água chegou a altura do peito. Ou seja, quase todo o material foi destruído. Sobraram poucos exemplares e perdi também muitos dos meus pertences pessoais.

O jeito foi respirar fundo e, pela primeira vez, usei uma plataforma brasileira chamada Catarse, que é voltada para o crowdfunding, ou também conhecido como financiamento coletivo. Foi graças a isso que consegui voltar a me reorganizar, recuperar e reimprimir os livros.

Apesar das dificuldades, fico muito grata em lembrar de todo o apoio e ajuda que recebi. As pessoas foram muito solidárias, principalmente os colegas editores independentes. Fizeram uma rede de apoio que me ajudou demais. Um grupo que me mostrou o espírito do coleguismo de verdade. Batemos a meta e conseguimos nos reestabelecer.

Após o Carnaval, eu estava em uma feira em São Paulo quando eclodiu a pandemia. Ainda estava lidando com os problemas da inundação e foi um período realmente difícil. Minha casa precisava de cuidados e tive que ficar com amigos e depois aluguei um apartamento temporário enquanto lidava com tudo.

Continuamos com a loja online e, no início da pandemia existiu uma busca maior por produtos culturais. Os principais títulos de venda, que eu ainda tinha conseguido salvar, tiveram boa saída. O distanciamento e a falta de eventos prejudicaram muito os negócios, mas nos fez pensar em novas soluções também.

E não paramos com os nossos projetos. Houve um certo atraso, mas conseguimos em outubro, fazer o lançamento do livro “Amigas que se Encontraram na História”, de Angélica Kalil e Mariana Fonseca.

É um livro infanto-juvenil sobre a amizade entre mulheres que se destacaram na humanidade em diferentes tempos. A proposta é revelar um vínculo de afeto muitas vezes desconhecido pela maior parte do público e o legado que estas relações deixaram para o mundo. Fizemos um lançamento online, incluindo uma mesa redonda com seis participantes. Foi bem interessante.

Participamos de lives e eventos literários virtuais e, neste segundo semestre, alguns movimentos foram sendo retomados. O mercado livreiro de certa forma se mobilizou para ocupar esse espaço online, apesar de não podermos comparar com os presenciais.

Neste mês de dezembro fizemos outro lançamento, agora do livro “Todos os Olhos em Mim – Racismo nos Relacionamentos Inter-raciais”, de Aline Santos de Campos. Um trabalho de pesquisa que apresenta histórias reais de pessoas que vivenciam o preconceito, literalmente na pele.

E quais as perspectivas para 2021?

Posso dizer que em 2020, a plataforma Catarse foi minha grande companheira e tábua de salvação. Além da arrecadação no início do ano, a editora também foi contemplada em uma campanha feita por eles para ajudar editoras independentes.

Outra lição aprendida este ano foi aceitar e pedir ajuda e saber que não precisamos fazer tudo sozinhas. Essa pandemia abriu meus olhos para o universo das Leis de Incentivo, aprender a me reestruturar, reinventar e saber o que funciona e o que não funciona e ainda como fazer as coisas de forma diferente. Um pouco menos de romantismo e um pouco mais de realismo construtivo.

Para 2021, já estamos com três livros engatilhados via leis de incentivo e estou esperançosa pelo que está por vir. Há reestruturações internas a serem feitas e estou confiante de que com elas, muitos novos projetos virão. A mente fervilha de ideias, inclusive para humanizar mais as redes e comunicações remotas e vamos tentar repetir os sucessos antes conseguidos nas feiras e eventos presenciais.

Por maiores que sejam as dificuldades, vemos que o mercado consumidor de livros ainda é positivo e há muitas coisas boas que ainda precisam sair da gaveta. Já estou com a agenda apertada para o ano que vem, com vários novos projetos em vista. As coisas vão andar!

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