Pesquisa e Desenvolvimento – Inovação e Empreendedorismo

Lições da pandemia e perspectivas para o futuro

O ano de 2020 foi desafiador, especialmente para algumas atividades da economia criativa. Por isso, nas próximas semanas, o P7 Criativo vai apresentar exemplos de negócios criados ou recriados a partir das imposições da pandemia.

A série “Reinvenção” começa com um balanço do setor de Inovação e Empreendedorismo feito pelo professor Carlos Arruda, da Fundação Dom Cabral. Ele pesquisou a forma como os negócios brasileiros responderam à crise do coronavírus e aponta tendências para o setor.

Bio – Carlos Arruda é PhD em Business and Administration pela University of Bradford (Reino Unido), Mestre em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais e Engenheiro Mecânico pela mesma universidade. Professor de Inovação e Competitividade na Fundação Dom Cabral, e é coordenador do Núcleo de Inovação e Empreendedorismo. Membro Emeritus do Conselho do UNICON (EUA), do Conselho Técnico Científico do Instituto Venturus, membro do conselho assessor do Kellogg Innovation Network (EUA), do conselho curador da Fundação Biominas, do comitê técnico da Fundepar e do conselho assessor das empresas EVO Equipamentos e da AEVO Tecnologias.

P7 Criativo – Professor, qual foi o seu principal foco da sua pesquisa neste ano?

Carlos Arruda – A nossa principal ação ao longo da pandemia no Núcleo de Inovação e Empreendedorismo foi a realização de pesquisas para analisar setorialmente como diferentes empresas e tipos de negócios em todo o Brasil estavam reagindo à pandemia. Realizamos três pesquisas. Duas com médias e grandes empresas já estabilizadas e a terceira com startups.

Realizamos as pesquisas com grandes e médias empresas em abril/maio e depois em junho/julho. O levantamento contou com a contribuição de 152 profissionais, executivos de empresas dos diversos setores da economia: indústria, serviços, saúde, educação, agricultura e tecnologia.

Uma questão tratou sobre a postura para equilíbrio das agendas de curto, médio e longo prazos e mostrou que 57% das empresas estavam focadas no curto prazo, mas também planejando estratégias sobre novos negócios, produtos e processos para médio e longo prazos.

Sobre os impactos prejudiciais do “novo normal” nas atividades de PD&I (pesquisa, desenvolvimento e inovação) 53% dos representantes afirmaram que as empresas não sentiram tais efeitos, contra 41% que os relataram e outros 5% que ainda não souberam responder.

A percepção de impacto da crise nas atividades de PD&I das empresas aumenta de acordo com o porte. As grandes empresas parecem ter sido as mais afetadas negativamente, com 53% do grupo afirmando essa percepção. Por outro lado, as microempresas foram as menos abaladas, com apenas 27% percebendo impactos negativos.

Quais as principais conclusões tiradas dessas pesquisas?

Logo descobrimos que a primeira reação, de forma geral, foi a de proteção das pessoas: regime de home office, distanciamento físico para os clientes e muita incerteza sobre quanto tempo isso tudo ia durar. Pelo nosso monitoramento, a grande maioria apostava no fim dos problemas da pandemia em meados de julho, quando a ideia era de que tudo se normalizaria.

Os projetos de inovação das médias e grandes empresas foram paralisados, inicialmente, por conta do home office e da suspensão dos investimentos para proteger o caixa. Depois, as empresas viram que precisavam reagir, porque o processo seria muito mais longo do se imaginava.

Então, os negócios precisaram se reinventar. Percebemos dois movimentos; um de entendimento de como chegar ao cliente e o outro de um uso mais agressivo e amplo das redes sociais. Plataformas como WhatsApp e Telegram, por exemplo, se tornaram efetivos instrumentos de relacionamento e vendas. O setor de varejo é um bom exemplo disso. Virou-se para o comércio online para sobreviver. O setor de educação também aprendeu a usar melhor a tecnologia para viabilizar as aulas remotas, entre outras ações como processo pedagógicos e metodologias.

E os próximos passos?

Se o primeiro momento foi de paralisação, o segundo momento buscou encontrar uma resposta rápida para recuperar um pouco a capacidade de vendas. Isso aconteceu no varejo e na área de saúde, com a telemedicina e o atendimento domiciliar, aumentando a realização de exames em casa.

Houve muita inovação nessa fase dois, em meados de maio, junho e julho, para buscar a sustentação dos negócios. Uma busca de sobrevivência e preservação. A principal escolha foi a adoção de tecnologias. Muitas tecnologias digitais, além das redes sociais, para relacionamento com clientes, suprimentos e fornecedores, em todos os setores.

Por outro lado, as empresas viram que essa situação ia demorar mais tempo que o previsto e aqueles investimentos de inovação que estavam suspensos começaram a voltar. Mas agora o foco era orientado para geração de resultados e encontrar soluções mais rápidas. Mais inovação, melhoria de eficiência, desenvolvimento de novos modelos de negócios e novas ofertas de valor para o mercado.

E sobre os setores da Economia Criativa? Quais foram os principais resultados levantados?

Posso exemplificar a análise do setor de Gastronomia, por exemplo. Ficou claro que houve um boom nos serviços de delivery para o mercado de alimentação, como restaurantes e lanchonetes. Foram realizadas muitas iniciativas interessantes, de apoiar os estabelecimentos, como fazer doações no presente que poderiam valer créditos no futuro, mas foram ações de curto prazo.

Os mecanismos de delivery foram uma solução rápida, que funcionou no início, mas a médio e longo prazo não seria tão interessante. Além do custo adicional, os estabelecimentos perderam o contato com os clientes, pois as plataformas detinham os contatos e relacionamento e isso não era positivo. Logo, muitos reagiram e buscaram as redes sociais e WhatsApp para evitar os intermediários.

“Para a turma da economia criativa, a minha mensagem é usar a tecnologia o máximo possível para maximizar as possibilidades de criar no curto prazo”

Foram citados até agora os dados sobre médias e grandes empresas. E as startups?

Fizemos uma pesquisa em maio para saber como estavam as startups e acessamos a base da Associação Brasileira de Startups. A pesquisa “Impactos da pandemia da Covid-19 na atividade das startups” foi uma iniciativa do Núcleo com o Órbi Conecta e ouviu diretores, fundadores e membros de startups brasileiras. A amostra contou com 94 respondentes e abrangeu mais de 30 segmentos de negócios, com destaque para Tecnologia, que representou 27% do total de pesquisados.

Nos dados levantados, 53% dos entrevistados afirmaram terem sofrido impactos negativos devido à pandemia e 30% foram positivamente afetados neste mesmo cenário. Os resultados apontam para uma postura ativa das startups na reestruturação e reinvenção de seus negócios: quase 60% dos respondentes concordaram com este ponto. Com relação à adoção do desenvolvimento ou da adaptação de produtos para contribuir com o combate à Covid-19, 33% apontaram intensidade máxima na adoção desta estratégia e 29% dos envolvidos apontaram a adoção da busca por novas parcerias com grandes empresas como estratégia utilizada com intensidade máxima.

Alguns dos principais impactos que pudemos observar na pesquisa estão relacionados à aceleração forçada do processo de transformação digital das empresas. Embora isso já viesse ganhando espaço há algum tempo, nunca foi tão crucial para a adaptação e reinvenção dos negócios e dos relacionamentos com o ecossistema.

E quais as principais conclusões?

As startups se viram em uma situação de perigo de endividamento, já que não possuíam uma base muito sólida para se sustentar. Naquele momento, empresas das áreas de turismo e entretenimento, por exemplo, estavam demitindo em larga escala e até fechando as portas. A reação não foi positiva. Por outro lado, vimos um movimento interessante nas empresas que faziam ofertas de tecnologia. Como seus clientes são médias e grandes empresas que buscavam soluções, elas passaram a ser fornecedores alvo nesse momento.

Logo, os trabalhadores de startups de turismo e entretenimento migraram para a área de tecnologia, que teve um forte crescimento. O que detectamos foi uma tendência das empresas com soluções tecnológicas de responderem melhor às mudanças e às demandas do mercado, com muito mais oportunidades naquele momento.

E sobre os outros projetos do Núcleo de Inovação e Empreendedorismo?

Realizamos outro estudo sobre a transformação digital das empresas. Foi muito interessante. A maioria das empresas está fazendo o que chamei de adoção tecnológica. Elas não fazem inovação, investimento e pesquisa. Elas buscam fornecedores que podem ser pequenos, nanos, startups ou multinacionais, o tamanho não é importante e sim a solução pronta para ser implementada.

O objetivo é algo no estilo ‘plug and play’. De um dia para o outro passam a ser digitais por meio de uma plataforma que já foi testada e validada e isso foi bom para o desenvolvimento do mercado. Proporcionou mais acesso com custos variáveis e disseminou conceitos como cloud computer. Custos antes muito altos ficaram mais acessíveis e pequenas empresas tiveram a chance de adotar novas e avançadas tecnologias.

Qual o seu conselho para os empresários para o período pós-pandêmico?

Estamos vivendo um momento muito interessante de novas tecnologias ocupando um espaço na sociedade. Smartphones e redes sociais são relativamente novos e veja como hoje valem bilhões. Rapidamente vão surgir novas indústrias e novos mercados. Há uma estimativa de que com a adoção de tecnologias muitas profissões precisarão ser ‘retreinadas’.

Vai surgir um grande mercado de requalificação digital das pessoas. Isso é muito novo. Temos hoje programas de requalificação profissional das mais diversas áreas, mas agora vamos ter de combinar os conhecimentos com tecnologias digitais. O mercado de dados e análise de dados é um dos que já se desenvolveu e irá crescer ainda mais nos próximos anos e impacta diretamente no entendimento do mercado de produção de conteúdo para mídia e outras fontes.

Para a turma da economia criativa, a minha mensagem é usar a tecnologia o máximo possível para maximizar as possibilidades de criar no curto prazo. Não transfiram o presente para o futuro. Não pensem apenas no futuro. Pensem em como manter os ganhos que geram com uso de comunicação online ou outros mecanismos, mas todos os dias pensem em como fazer algo que ninguém nunca fez. Sejam diferentes nessa nova indústria. Incorporem tecnologias de forma mais radical. Usem a inteligência artificial no entretenimento, nas artes, na arquitetura e no design.

Vemos que, nos próximos anos (não em 2021 ainda, mas logo depois), o mundo vai usar e abusar dessas tecnologias para criar novos negócios. É um momento muito interessante para os negócios da economia criativa buscarem novas formas de oferecer valor ao mercado em todas as áreas.

Uma característica muito interessante desta pandemia foi a certeza de que não conseguimos inovar sozinhos. Todo mundo já falava de colaboração, inovação aberta, mas durante a pandemia ficou muito claro de que, se quero acelerar o processo de inovação, eu preciso trabalhar com parceiros. Essa vai ser uma tônica muito forte. Isso veio para ficar e acho que o P7 Criativo, particularmente, pode ser um bom exemplo disso, de colaboração e de integração da sociedade.

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