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Entrevista 24 set 2020

Como transformar negócios tradicionais em inovadores? Entrevista com o Coordenador de Inovação e Conectividade da FCA, Gustavo Delgado.

O desenvolvimento da cultura, cada vez mais dinâmica e plural, movimenta as empresas em direção a resultados inovadores. É preciso escutar para alinhar expectativas internas e externas. Essa é uma das lições que vamos aprender hoje com a história de inovação da Fiat Chrysler Automóveis (FCA), em mais uma edição da série Histórias que nos Movem.

Instalada em Betim, Minas Gerais, desde 1976, a empresa investe em capacitação e no desenvolvimento de novos produtos e tecnologias, com o desafio de surpreender seus públicos. Segundo Gustavo Delgado, Coordenador de Inovação e Conectividade da FCA para a América Latina, o planejamento de práticas inovadoras deve conectar o ambiente de dentro da empresa com as demandas de mercado: “O objetivo é dar voz às áreas e aos colaboradores para compartilhar suas dores e oportunidades e, ao mesmo tempo, oferecer estímulos mapeados do ambiente externo, de empreendedores, do criativo e de soluções de outras indústrias”.

Confira mais detalhes dessa história na entrevista abaixo com o Coordenador Gustavo Delgado.

P7 Criativo: Para você, qual a importância de se investir em projetos inovadores dentro da empresa e como estimular essa prática internamente?

Gustavo: Investir em inovação nos ajuda a surpreender os nossos consumidores e a ir além das expectativas deles. É uma forma de ampliar a nossa consciência em um mundo cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo. Nesse contexto, a estratégia de inovação da FCA é, por um lado, protetora do seu core business, o que nos possibilita contribuir para uma empresa cada vez mais eficiente e sustentável. Ao mesmo tempo, a inovação é um caminho (talvez “o” caminho) para explorar novos territórios, novos modelos de negócio, novas oportunidades. E grandes oportunidades demandam competências e conhecimentos que nem sempre dispomos. Por isso, mobilizar parceiros e startups em iniciativas de inovação aberta para o desenvolvimento de soluções nos traz agilidade e vantagens competitivas em um mercado em transformação acelerada. 

Estimular essa prática internamente passa por vários aspectos. Tudo começa com uma estratégia clara e robusta de inovação. Estabelecer propósitos e objetivos concretos torna a comunicação interna e externa mais fácil e transparente, nos ajudando a entender e focar naquilo que faz sentido para a empresa e nos ensina a dizer não para aquilo que eventualmente não é estratégico para a organização. Na sequência, vem o que chamo de mecanismos de execução da estratégia, para permitir as ideias emergirem. Estrutura, equipe, processo, estímulos. Temos experimentado um trabalho de escuta qualificada, para dar voz às áreas e aos colaboradores que compartilham suas dores e oportunidades, ao mesmo tempo que compartilhamos estímulos mapeados do ambiente externo, de empreendedores, do criativo, de soluções de outras indústrias, inclusive. Isso alimenta uma cultura dinâmica e plural. E, claro, tudo isso sem esquecer do bom acaso. É preciso estimular o encontro de pessoas de diferentes culturas e gerações. De momentos e situações inesperadas surgem o estalo, o gatilho para grandes inovações.

P7 Criativo: Quais os principais desafios que vocês enfrentam nesses processos de incentivo à inovação (tanto internamente, quanto no mercado)

Gustavo: Os desafios são muitos, o que é natural. Grandes empresas têm processos densos e complexos. São mais verticais na sua organização, quando comparadas às startups, que possuem um modelo decisório mais ágil, estruturas mais enxutas e conseguem pivotar sua estratégia com mais facilidade e velocidade. De certa forma, estimular a inovação é, em essência, questionar o status quo. É experimentar o que não necessariamente é o lugar do conforto. Trabalhar temas, práticas, formas que não são as do cotidiano. É desafiador não fazer mais do mesmo. Capturar oportunidades emergentes onde ninguém enxergou. Explorar territórios novos. A indústria automotiva trabalha com um produto muito complexo e tecnológico. A forma como esta indústria se organiza reflete um pouco essa complexidade. É um desafio trazer o mindset do digital e do agile, nesse contexto. 

Quanto ao mercado, é interessante perceber como o ecossistema de inovação está aquecido: muitas oportunidades de fomento, inúmeros programas de inovação aberta. A quantidade de startups e temas por elas trabalhados também cresceu exponencialmente. Considero isso um desafio. Na FCA, o nosso olhar é mais qualitativo que quantitativo. Para isso é preciso garimpar, encontrar a oportunidade estratégica, embasada em uma proposta de valor que consiga se destacar das inúmeras outras, com um time que possua as competências adequadas ao desafio. Outro aspecto me chama atenção: frente a tantos conteúdos interessantes que tratam sobre tendências tecnológicas e de consumo, oportunidades e evoluções de mercado, variações em modelos de negócio, o desafio é menor no processo de ideação em si, mas enorme na execução. Migrar do teórico para o prático. Vivenciar. Aprender. Pivotar. Evoluir.  

P7 Criativo: Sobre o futuro da inovação: você poderia comentar sobre as perspectivas para os próximos anos?

Gustavo:  O tempo presente nos ensina a pensar o futuro de forma menos preditiva ou prescritiva. Complexidade e incerteza são variáveis que fazem parte do nosso contexto e é preciso reconhecer isso. Mas os aprendizados com a pandemia ainda em curso e seus impactos em proporção inédita para a nossa geração nos dão uma pista de que o futuro é mais colaborativo, mais compartilhado, mais aberto. Por necessidade, a crise tem sido um grande estímulo à transformação digital, ao experimento de novas propostas de valor e de modelos de negócio, até então desconsiderados ou praticados em evolução incremental. É uma lição do presente que fica evidente para o futuro. Juntos, fazemos mais coisas. Fazemos melhor. Fazemos mais rápido. Além disso, vejo nos próximos anos uma inovação mais consciente. Menos interessada na tecnologia pela tecnologia e mais focada em resolver problemas reais, com um olhar mais humano. Talvez não mais por necessidade, mas por escolha.

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