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Entrevista 13 dez 2018

P7 ENTREVISTA: ANA CARLA FONSECA

Para iniciar a série de entrevistas que o P7 Criativo vai publicar no blog, trazemos uma rica conversa com a especialista Ana Carla Fonseca, estudiosa e experiente consultora sobre economia criativa. Para ela, estamos falando de algo mais amplo que um segmento da economia, que ela prefere definir como uma nova fase econômica, desencadeada pelo conhecimento e pela revolução digital. O assunto vai longe, siga com a gente.


* * *

Há mais de uma década o tema economia criativa é abordado em eventos, artigos, estudos. Ainda assim, parece não haver consenso sobre o que é de fato a economia criativa e, em especial, quais atividades econômicas fazem parte desse universo. O que você pode nos dizer sobre o conceito de economia criativa e o universo que esse segmento abarca?

Para a gente entender o conceito, é importante dar um passo atrás e situar o nascimento da economia criativa, ainda com o nome de indústria criativa, na segunda metade da década de noventa, sob o impacto das tecnologias digitais. Toda fase econômica acaba sendo desencadeada por uma revolução. Foi assim na revolução agrícola, na industrial, foi assim na do conhecimento.  

Defendo que a economia criativa não seja simplesmente uma adjetivação nova de economia, como é o caso da colaborativa, compartilhada e de tantas outras, mas sim uma nova fase econômica. Eu digo uma nova fase, um novo paradigma econômico, porque a partir do momento que você tem o impacto das tecnologias digitais, algumas coisas importantes ocorrem não só na sociedade de modo geral, mas até na forma com que a gente se relaciona. Comparativamente com as fases anteriores, na nova economia você tem uma série de mudanças importantes, a primeira delas é que as informações circulam muito mais facilmente em escala planetária. Se você parar para pensar que as grandes fontes da atividade humana são as ciências e a tecnologia, por um lado, e as artes e a cultura, por outra, essas são as duas grandes formas de diferenciar produtos e serviços. Portanto, temos a economia criativa abrangendo esse leque e que vai de ciência e tecnologia à artes e cultura.  

Além disso, a economia criativa, cada vez mais, vem sendo uma forma transversal na economia, mudando tudo. Não só nas indústrias criativas em si, que são os segmentos específicos, mas também dinamizando os setores tradicionais da economia. Você vê o impacto da moda dinamizando toda cadeia têxtil de confecções, vê o impacto da gamificação dos jogos em todos os setores, inclusive no de saúde, aeroespacial e em todos os demais.

Por que é relevante diferenciar o segmento da economia criativa de outros setores? O que a sociedade ganha com a consciência sobre a existência desse segmento?

A economia criativa é aquela que de fato gera valor agregado, gera diferencial, gera inovação e, a partir disso, você tem um reconhecimento maior, não só o reconhecimento moral, satisfação pessoal, mas também o reconhecimento financeiro, tem uma melhor remuneração dos talentos criativos porque eles são vistos como aqueles que geram algo diferente, pelo qual as pessoas estão dispostas a pagar. Inovação é isso, uma criatividade posta em prática, mas que é reconhecida pelos outros como tendo valor. Às vezes, a gente faz uma coisa criativa, mas que não é necessariamente inovadora por não ser entendida como agregadora de valor. O que vale não é só a percepção da gente, mas sim a percepção do mercado.

Do ponto de vista individual, as pessoas têm o incentivo para arriscar, para inovar, para fazer algo diferente, porque elas entendem que o mercado está preparado pra isso. Do ponto de vista da cidade, da região, do país, é fundamental reconhecer esse segmento porque os setores criativos abrangem os negócios que mais crescem na economia e que remuneram melhor. São também mais atraentes para os jovens. Então, temos um conjunto de motivos pelos quais é fundamental a economia criativa ser bem trabalhada no ponto de vista da economia macro, no ponto de vista de satisfação individual e toda uma série de dinamizações que ela traz para as cidades, como o vínculo com setores do turismo e do patrimônio, que são tão importantes para Minas. Portanto, temos  impactos muito maiores do que os econômicos em si.

Em termos de políticas públicas e iniciativas do setor privado, o Brasil tem avançado no sentido de fazer da economia criativa um pilar relevante de seu desenvolvimento?

Eu diria que no ponto de vista das empresas não se pode falar de forma monolítica. Até por uma questão de sobrevivência, as empresas de ponta que estão vinculadas a tendências, que são mais antenadas em mudanças econômicas e demandas de mercado, cada vez mais percebem que não tem escolhas: tem que inovar, trazer valor agregado, tem que valorizar quem trabalha com  elas. Já no setor público acredito que estamos muito longe do que seria desejável, temos uma carência grande ainda, desde o levantamento de dados, estudos, estatísticas que permitam fazer o monitoramento de ações de políticas públicas. Tem que entender o papel da economia criativa dentro dos territórios, o que ainda não é claro. Por isso acho que falta bastante pra gente conseguir, no ponto de vista de políticas públicas, respaldar o setor privado em todo seu desenvolvimento.

Que iniciativas relevantes você poderia citar?

Há várias iniciativas vinculadas ao empreendedorismo de um modo geral. A cena das startups no Brasil cresce muito, em parte devido a alguns apoios, mas muito por ímpeto dos próprios empreendedores, isso nas mais diversas áreas de startups por todo Brasil, que dão um show.

Inclusive, muitos empreendimentos que focam em impactos sociais, as inovações com propósito, desde materiais reutilizados para sustentabilidade e startups que tenham a ver com economia circular, como é o caso da Boomera, e instituições como o P7 e várias outras que são voltada para isso. Do ponto de vista de articulações pessoais, um caso que me parece muito interessante é o de Santa Rita do Sapucaí, onde estão fazendo um trabalho muito interessante de articulação entre os setores público, privado, sociedade civil e universidade.

Hoje, no Brasil, o que você considera como o principal desafio para uma evolução na maturidade do setor de economia criativa?

Acho que uma parte importante é de conscientização, em especial no que diz respeito aos setores vinculados a artes e cultura. Ainda temos uma visão predominante na sociedade de que artes e cultura não necessariamente geram impacto econômico. E, por parte de muitos trabalhadores da cultura, nem sempre a associação do mercado com a cultura é bem vista, o que é uma pena, porque é uma faceta natural da economia. Não que ela vá subjugar a cultura. Pelo contrário, ela pode fazer com que quem quer viver de cultura consiga fazer isso e não tenha que se dedicar a outra profissão. Então tem uma questão importante, em especial de conscientização, e não só vinculada à cultura, mas do que é efetivamente economia criativa. Há uma carência grande de estudos e dados estatístico e de articulação de políticas públicas. Além disso, há uma questão que claramente está vinculada à economia criativa, mas não só a ela, que é a baixa qualificação e a baixa produção do trabalhador brasileiro.

Por fim, pode citar alguma publicação (livro, artigo, site, blog) interessante para quem quer saber mais sobre o tema?

Livros, eu recomendo um que nós organizamos junto com o Itaú Cultural. Foi a primeira publicação no mundo trabalhando economia criativa sobre o viés de países em desenvolvimento, e que se chama justamente “Economia criativa como estratégia de desenvolvimento” e que fica disponível no site Garimpo de Soluções, dentro de uma pasta chamada livros. E outro que indico, que também foi editado por nós, é uma compilação de vários colegas do mundo. Um trabalho voluntário de nós todos, cuja produção impressa teve apoio do Sebrae. Fizemos o lançamento no Brasil começando por Minas, e se chama “Cidades Criativas: Perspectivas”, que também está disponível no site.

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Sobre a entrevistada

Ana Carla Fonseca é Administradora Pública (FGV); Economista, Mestre em Administração, Doutora em Urbanismo (USP), com MBA Executivo pela Fundação Dom Cabral. Liderou projetos em multinacionais por 15 anos, na América Latina, em Londres e Milão. É diretora da Garimpo de Soluções, consultora e conferencista em cinco línguas, com passagem em 183 cidades e 30 países. Escreveu vários livros pioneiros, tendo sido agraciada com o Prêmio Jabuti em Economia (por Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável – Manole, 2007) e finalista em Urbanismo (com Cidades Criativas – SESI, 2012). Venceu o Prêmio Claudia 2013, em Negócios e foi apontada pelo El País como uma das oito personalidades brasileiras que impressionam o mundo. É professora convidada da FGV/EAESP e de universidades na Argentina e na Espanha.

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