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Artigo 07 jun 2018

Introdução à dinâmica da inovação

“Inovar” é um verbo utilizado em inúmeras áreas, dentro de contextos bastante diversos. Inovar significa introduzir novidade dentro de um sistema preestabelecido. Até a primeira metade do século XX, falava-se mais em “invenção”, “técnica” e “tecnologia”. O termo “inovação”, tal como o entendemos, foi popularizado nos anos 1950 pela literatura econômica e as ciências da gestão. Para começar, é necessário distinguir “inovar” de “inventar”. Uma inovação é respaldada por uma invenção. Porém, nem toda invenção culmina numa inovação. O inventor pode perfeitamente criar algo novo, mas se sua criação não produzir valorização econômica, não se trata de uma inovação. Aliás, inúmeras invenções sequer chegam ao estágio da valorização econômica.

As invenções podem ser protegidas pelas regras da propriedade intelectual, diferentemente das inovações. A informática, a internet ou a pílula contraceptiva resultam de invenções técnicas ou científicas. São categorizadas como “inovações” porque conduziram a transformações das práticas sociais. A inovação reside justamente nesta articulação entre a descoberta e a lógica social ou mercantil.Entretanto, a passagem da invenção à inovação não é algo evidente. Na Idade Média, o desenvolvimento do arado teria sido muito mais rápido se sua utilização não tivesse enfrentado tantos obstáculos culturais e jurídicos. Um deles era a necessidade de se utilizá-lo em campos abertos, livres de parcelas. Para isso, foi preciso revisar a estrutura do sistema agrário e os direitos de propriedade da terra, até então intocáveis. Hoje, por exemplo, a disseminação dos OGM (Organismos Geneticamente Modificados) vem sendo obstruída por entraves muito mais socioambientais do que tecnológicos.

Ao falarmos de inovação, devemos mencionar a contribuição fundamental do economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950), cujas teorias sobre a dinâmica econômica deram grande destaque à figura do empreendedor e ao processo de destruição criadora. Schumpeter descreve em seus trabalhos os ciclos econômicos oriundos da inovação. No rastro de ruptura de uma inovação importante, derivada, quase sempre, de um progresso técnico ou científico, surgem outras inovações que modificam profundamente o mercado. O novo não germina do antigo, mas sim ao lado do antigo, concorrendo com ele até suplantá-lo: esta é a destruição criadora. Para Schumpeter, a inovação é um fenômeno que se dá por ondas sucessivas. De acordo com essa visão, o motor a vapor deu origem a um primeiro ciclo longo, seguido pela eletricidade, pela química, pelo automóvel e, por fim, pela informática.

POR QUE UMA EMPRESA DECIDE INOVAR (OU NÃO)?

Ao vermos o sucesso fulgurante de certas empresas inovadoras como a Apple ou o Google, somos imediatamente convencidos dos benefícios da inovação. Contudo, grande parte das empresas ainda inova pouco, ou mesmo evita inovar (de maneira radical, em todo caso). Ao contrário do que parece, essa escolha é racional.

O processo de inovação é extremamente custoso. Custoso em despesas de P&D para a criação de um novo produto, custoso em novos equipamentos para produzi-lo, em investimentos diversos para a utilização de novos materiais no processo produtivo, bem como para a implantação de um novo processo ou de uma nova organização do trabalho.A inovação pressupõe a reorganização da cadeia de suprimentos, o recrutamento de novas competências, o lançamento de campanhas de comunicação que irão abrir lugar no mercado para o novo produto, etc.Todas essas despesas representam custos fixos, independentes do volume de produção ou de vendas. São custos irrecuperáveis que certamente farão despencar os resultados da empresa na hipótese de fracasso. A história está cheia desses inovadores que caíram em desgraça, arruinados por suas inovações. O perigo mora no fato de que os encargos financeiros do investimento inicial costumam aparecer bem antes do sucesso comercial da inovação. A inovação, além de tudo, é tão arriscada quanto custosa. Estatisticamente, a maior parte das inovações se converte em fracasso.

O risco essencial da inovação é o risco comercial, o risco de ela não encontrar seu público. Novos produtos vêm perturbar os hábitos de consumo do cliente, que se vê mais desconfiado do que entusiasmado perante a novidade. As prateleiras dos supermercados, por exemplo, estão repletas de produtos alimentícios que serão retirados do mercado nos próximos 3 ou 6 meses, precisamente porque não terão caído no gosto do consumidor.Para a empresa, o risco comercial pode até se transformar em canibalismo: isso acontece quando o novo produto, que teoricamente deveria estender a linha de produtos e aumentar o faturamento da companhia, começa a corroer o mercado de seus irmãos em vez de incomodar os concorrentes.Ademais, em caso de substituição do produto antigo pelo novo produto, a empresa se expõe, inclusive, à perda de mercado. O novo produto pode, por fim, afetar negativamente a imagem da organização, o que acabará comprometendo as vendas de todos os demais produtos.As inovações comportam, paralelamente, riscos técnicos. Não é incomum que uma nova tecnologia precise vencer sua própria fragilidade e suas imperfeições antes de ser completamente dominada. A competência para isso pode vir a faltar na empresa, os colaboradores podem ter dificuldade de se adaptar, ou mesmo resistir à nova tecnologia.

INOVAR PARA NÃO MORRER

Muitas empresas não possuem capacidade de inovar de maneira radical e tomam a inovação como um constrangimento imposto pelo ambiente. Em virtude da nova oferta concorrente, elas são confrontadas não só à evolução da demanda dos consumidores, mas também do ambiente sociotécnico. A pressão dos concorrentes diretos é, obviamente, a principal razão dessa obrigação de inovar, que se confunde com a obrigação de se manter competitivo num mercado dinâmico. Outros determinantes também forçam a empresa a inovar “contra sua vontade”. Um fornecedor que modifica seu produto, incorpora uma nova tecnologia, um parceiro comercial, bancário ou financeiro que impõe obrigações técnicas à empresa, etc.Do mesmo modo, fatores legais podem provocar mudanças nas características de um produto ou de um processo. As regulamentações referentes à higiene, à segurança ou à rastreabilidade obrigaram todos os agentes da indústria e do comércio agroalimentar a se modernizar para continuarem exercendo suas atividades.Assim, a maioria das empresas, em particular as de micro e pequeno porte, adapta-se a inovações concebidas e desenvolvidas por terceiros. Elas se comportam como “imitadoras” ou “maria-vai-com-as-outras”.Não se pode, todavia, pensar que existe, verdadeiramente, uma “inovação passiva”. A adoção de uma inovação criada por outrem sempre exigirá um esforço individual, mesmo que reduzido, de adaptação e de inovação. A nova tecnologia ou o novo produto acarretarão, certamente, uma evolução do processo produtivo, da organização do trabalho e da estrutura de competências da empresa.Em suas memórias, o engenheiro Taiichi Ohno, pai do Sistema Toyota de Produção, confessa que, para ele, a inovação produtiva não foi algo deliberado. Ele apenas procurou aplicar ao pé da letra os conceitos principais de Henry Ford no contexto singular da indústria japonesa
dos anos 1950. Essa adaptação originou, ainda que involuntariamente, uma grande revolução na organização do trabalho.

Escrito por:
Manoel Castello Branco é formado em cinema pela Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, com especialização em produção e realização cinematográfica pelo Conservatoire Libre du Cinéma Français. Possui mestrado em roteiro e escritas audiovisuais pela Universidade Paris Nanterre, em gestão de marketing e comunicação pelo Institut Supérieur de Communication et Publicité (ISCOM Paris), além de certificado em financiamento e economia da cultura pela Universidade Paris Dauphine. Atualmente, integra o programa de especialização em gestão de negócios da Fundação Dom Cabral. Ingressou no Sebrae em 2015, onde ajudou a estruturar e a implementar o projeto do P7 Criativo. É parte da equipe executiva da Agência desde a sua inauguração, em agosto de 2017.

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