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Artigo 31 maio 2018

O paradoxo do empreendedorismo cultural e criativo

Houve um tempo em que falar do conceito de empreendedorismo cultural e criativo era um paradoxo. Como imaginar que o realizador de projetos artísticos ou culturais pudesse reivindicar plenamente sua condição de empreendedor, posto que sua missão nunca foi a criação de valor econômico e que, na maioria das vezes, os incentivos públicos são indispensáveis para tornar os bens e produtos culturais acessíveis?

Por via de regra, a cultura é tratada de maneira dual: de um lado, criação artística, do outro, economia do entretenimento. Essa concepção artificial e equivocada leva a crer que os agentes da economia criativa se atacam em duas frentes: os estritamente desinteressados pelo equilíbrio econômico e os que vivem atormentados pela implementação de processos de gestão e pela rentabilidade financeira. Diante de uma visão progressista e contemporânea da cultura e de uma abordagem arcaica de um setor perpetuamente assistido, é fácil escolher um campo.

Esses dois pontos de vista, no entanto, fazem parte de uma dinâmica comum. Com efeito, a perenidade do empreendimento criativo depende diretamente de sua qualidade artística e cultural, fator de atração e sucesso público.

É essencial que o debate mergulhe mais profundamente nas questões subjacentes a esta dicotomia. É claro que a criação, o patrimônio e a educação não são redutíveis a uma lógica de mercado. Em contrapartida, os elos da criação e da cultura tampouco podem querer ignorar a lógica de rentabilidade. O que deveria ser de uma filarmônica ou de um teatro que não se sustentam com sua bilheteria ou com seus adeptos? Merecem sobreviver indefinidamente sob perfusão de patrocínio, eximindo-se de qualquer tentativa de fazer evoluir sua programação ou seu modelo de funcionamento?


LÓGICA DE RENTABILIDADE E CARACTERÍSTICAS DO PROJETO CRIATIVO

A questão não é impor à cultura uma racionalidade rigorosamente contábil ou uma rentabilidade necessariamente imediata. É importante, contudo, que os fundamentos da gestão e das finanças passem a ser incorporados pelas empresas do setor criativo. Adotar a lógica empreendedora não significa curvar-se forçosamente ao capitalismo exacerbado, marcado pela concorrência entre indivíduos, companhias e territórios, ou importar práticas empreendedoras oriundas de atividades econômicas tradicionais. Seria esquecer tudo o que os setores culturais inventaram desde os primórdios da humanidade e o que têm a nos ensinar.

Seja como for, observa-se que uma das primeiras dificuldades do empreendedorismo criativo é fazer com que os modelos econômicos da cultura sejam reconhecidos. Empreendedores criativos frequentemente não são levados a sério, sendo pouco compreendidos ou mal orientados por aqueles que estão acostumados a assessorar os criadores de empresas. Afinal, as empresas criativas experimentam as mesmas dificuldades de estruturação e de financiamento que as empresas de outros setores, mas são discriminadas. O empreendedor criativo é, muitas vezes, obrigado a minorar o caráter cultural e hipertrofiar o aspecto social ou tecnológico da atividade para ser considerado como gestor de um projeto empresarial digno desse nome. Compreende-se, portanto, o que torna o desenvolvimento desse tipo de negócio uma aventura mais árdua e perigosa que a média.

Ainda que um projeto o apaixone, o empreendedor criativo, quase sempre autodidata, raramente dispõe do conhecimento ou dos meios para estruturá-lo e levá-lo a cabo, dada a pouca informação sobre o assunto ou a quase constante falta de acompanhamento.

Nesse sentido, a economia criativa se assemelha mais à pesquisa e à prototipagem que ao desenvolvimento de uma atividade estruturada e perene. Suas motivações são mais intrínsecas (valor e sentido) que extrínsecas (remuneração e lucro), ao ponto que, para o artista, formular a vontade de criação de valor econômico pode, às vezes, parecer incongruente. Sucesso e rentabilidade permanecem, ainda assim, como objetivos a serem atingidos. Há de se admitir que, sem crescimento e benefícios, será impossível ao empreendedor bancar sua permanência no mercado.

O avanço tecnológico renovou as representações do empreendedorismo criativo. A imagem do artista maldito começa a se dissipar para dar lugar a uma geração que sonha em infringir os códigos da cultura e da criação. Essa jovem guarda fala despudoradamente de modelo de negócios, financiamento participativo e levantamento de fundos, ao mesmo tempo em que assenta suas ideias em um desejo coletivo de transformação.

Graças ao trabalho de instituições como o P7 Criativo, o empreendedor não estará mais atrelado à figura do demiurgo, único visionário criador, capaz de suportar o risco ante à perspectiva de valorização econômica da criação. Hoje, amplia-se a noção de empreendedorismo graças às formas contemporâneas de engajamento, individual ou coletivo, que pretendem oferecer uma nova proposta de valor, sem prejulgá-la pelo fato de que não seja, à primeira vista, mercantil ou rentável.

Esta nova proposta de valor vem romper paradigmas e engendrar novos modelos organizacionais, mais baseados na exigência de compartilhamento de uma visão comum que no apego a dividendos e partes de capital.

Para o criador, não se trata mais de viver exclusivamente de sua obra, mas também do que ele constrói em torno dela. O intuito é diversificar ao máximo as fontes de renda que lhe permitem alcançar um nível de vida satisfatório.

O empreendedor da criação e da cultura nos mostra que é possível empreender de maneira eficaz sem que se possua de antemão todos os recursos necessários. Pode-se esperar obtê-los ao longo da realização do projeto, com a coragem de quem pula no vazio sem antes se certificar da fiabilidade do paraquedas. Outra competência do empreendedorismo criativo é sua capacidade de federar as partes interessadas ao redor do sentido de ambição. Crescimento e dominação comercial através da acumulação de recursos não constituem objetivos em si mesmos, e sim a dimensão e o impacto de um projeto.

RELACIONAMENTO SOCIAL E A CRIATIVIDADE

A criatividade, além disso, é vetor de inovação, não apenas no sentido tecnológico do termo. Ela favorece as inovações sociais, de serviços e usos. São estes empreendedores que, sem dúvida, estão mais propensos a assumir riscos. E, como se sabe, a tomada de riscos é o fermento do empreendedorismo e da inovação.

Por fim, desde muito tempo, as organizações culturais e criativas acentuam o poder dos que sabem (adhocracia e ausência de hierarquia) e preconizam o mérito da legitimidade nos processos decisórios. Essas estruturas são formadas por colaboradores engajados, que escolheram se juntar a um propósito mediante salário e vantagens sociais muitas vezes abaixo do que poderiam obter em setores mais tradicionais.

Isso os instiga, mais do que em outros lugares, a questionar abertamente a coerência entre o que é professado pela empresa e o que é efetivamente praticado. Por essas razões, o empreendedorismo cultural precisou conceber um esquema de gestão inovador… muito antes da moda do ambiente de trabalho informal e descontraído copiada do Vale do Silício.

A economia criativa é plural: de criação, de mercado, de redistribuição, social ou mesmo solidária. É um vetor de desenvolvimento e formata nosso jeito de pensar, de viver e de estar neste mundo.

Os empreendedores que defendemos são verdadeiros agentes econômicos, cujas iniciativas estimulam a criação, criam empregos, geram renda e se inscrevem numa estratégia de desenvolvimento econômico sustentável. O benefício do investimento cultural e criativo se explica, ademais, pelos efeitos de alavancagem provocados nas cadeias do turismo e da educação. Se a subvenção e o patrocínio devem continuar a irrigar a criação, acabou a época em que essas atividades eram dispensadas das regras do empreendedorismo.

Escrito por:
Manoel Castello Branco é formado em cinema pela Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, com especialização em produção e realização cinematográfica pelo Conservatoire Libre du Cinéma Français. Possui mestrado em roteiro e escritas audiovisuais pela Universidade Paris Nanterre, em gestão de marketing e comunicação pelo Institut Supérieur de Communication et Publicité (ISCOM Paris), além de certificado em financiamento e economia da cultura pela Universidade Paris Dauphine. Atualmente, integra o programa de especialização em gestão de negócios da Fundação Dom Cabral. Ingressou no Sebrae em 2015, onde ajudou a estruturar e a implementar o projeto do P7 Criativo. É parte da equipe executiva da Agência desde a sua inauguração, em agosto de 2017.

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